Ler literatura de autoria negra devia ser proibido
A cada passo dos dias, me convenço de que ler literatura de autoria negra devia ser proibido. Tenho perdido noites de sono tentando aliviar meu inconsciente das verdades que conheci nesses livros. Sinto um incômodo e sensações contrárias que não consigo harmonizá-las. O que fizeram comigo, esses autores que, sem pedir licença, invadiram meu lugar de privilégio? Vivo desde então, à procura de mim. Incomodada com o sono fugidio causado pelas leituras negras e na tentativa de confirmar minha tese de que ler livros de autoria negra devia ser proibido, perguntei para alguém que, como eu, devora livros. Ele é minha garantia, assim retiro o peso dos ombros e volto a dormir.
Aproximei-me arrogante, mas ele afastou-se de mim repudiado e vi em seu rosto uma perplexidade. Essa é a lei, minha cara, ler livros de autoria negra não devia ser proibido. Segura de mim, vocifero: Os livros escritos por homens e mulheres negras são perigosamente humanizadores, me fizeram ver o outro e diante do espelho, o outro sou eu. A cada história vou sendo revelada, despida, retirada do meu lugar “sou racista?”, “não sou racista?”. A garganta aperta “não existe racismo?”, “racismo existe sim?” Estes emaranhados de palavras são constantes.
Ler literatura de autoria negra pode ser um problema, porque liberta mentes dormentes e enaltece o oprimido e, com isso, gera seres humanos conscientes do racismo estrutural, onde o racismo é crime perfeito e ser livre é o canto dos ex-escravizados “você pode ouvir a liberdade chamando? Me chamando para responder. Vou continuar continuando” (Stand up, Cynthia Erivo). Isso é obsceno. Liberdade? Essa literatura ameaça crianças, jovens, adultos, tornando-os capazes de compreender os valores civilizatórios do outro, a música, a alimentação, a competência, a sabedoria, a beleza, a voz, recolhendo no ato e na fala os povos afro-brasileiros.
Literatura de autoria negra traz eco e pronuncia a voz potente antes silenciada pelo atrasado relógio do tempo. Elevar vozes de diferentes lugares e diferentes personagens é nocivo. Mexe com as verdades já estabelecidas; com apagamentos e coloca homens e mulheres negras como protagonistas principais da história. É como se esses corpos servis ganhassem a mente sábia, com expressões de criatividade, conhecimento e estudos transmitindo saberes inquestionáveis. Isto é sério. Eu não sou somente dominada. Eu também domino, li outro dia. Essas verdades não querem cessar nas minhas noites.
Sim, a leitura de autoria negra devia ser proibida porque de organizada que sou, estou desorganizada, mas também li outro dia que quem entende o novo, o velho, desorganiza antes de organizar. Tem um desespero em mim, uma desconfiança de que a falta de sono e essas leituras negras me fizeram doida, mas posto doida que estou, sou levada a entender que autores negros e negras me organizam também. Estou contaminada e humilhada por precisar desta verdade, fechei os olhos e dormi feliz.
Gláucia Pereira Brito, 03/12/21.
Até a próxima.
Parabéns! Esta é uma reflexão que vale para todos, independente da cor da pele.
ResponderExcluirÉ vdd. Obrg pelos comentários
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